Combate Ao Bullying: Uma Proposta De Intervenção Inspirada No Modelo Finlandés “VERSO”

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RESUMO

Este artigo apresenta uma proposta de intervenção pela aplicação de um programa de combate ao bullying em uma escola pública do estado da Paraíba. O bullying está entre as questões importantes, urgentes e presentes no cotidiano escolar que devem ser discutidas no âmbito dos temas transversais. Trata-se de um tipo de violência presente nas escolas da maioria das nações do mundo e, no Brasil, as formas de bullying são semelhantes às encontradas em outros países. As estratégias utilizadas e descritas foram inspiradas na experiência finlandesa de um programa lá conhecido como “Verso”, que opera na sensibilização e no treinamento de estudantes para atuarem como intermediadores de conflitos na escola, o que reforça a prática de cidadania e civilidade, além de desenvolver a autonomia e o protagonismo dos estudantes, habilidades desejadas para o Século XXI. Estabeleceu-se um plano de seis passos para a implementação do programa: (I) Engajamento da comunidade escolar; (II) Sensibilização e engajamento dos estudantes para o exercício do papel de conciliadores; (III) Formação e treinamento dos conciliadores; (IV) Atuação dos conciliadores; (V) Avaliação e ajustes. Entre os desafios encontrados na implantação destacam-se a necessidade de esclarecimento e delimitação do escopo do programa (diferença entre conflito X delito) e falta de apoio dos gestores e do corpo discente. O resultado do trabalho resultou nas seguintes conclusões: (1) o bullying é um problema complexo que precisa ser encarado pela escola de maneira concreta e sistemática; (2) uma vez sensibilizados, os alunos têm muito interesse em ter essa questão tratada na escola, porque todos têm, de uma maneira ou de outra, experiências com o bullying; (3) os desafios para a implementação deste programa devem ser enfrentados com resiliência e confiança no processo; (4) devido à sua importância, o tema deveria ser transformado em política pública, incluído no plano de governo para a área da educação.

Palavras-chave: Educação. Bullying. Violência.

Photo: Regina Lima

1 INTRODUÇÃO

Este artigo apresenta uma intervenção realizada a partir da visível necessidade de se discutir um tipo de violência que ocorre dentro do ambiente escolar e que ainda é vista como mera brincadeira: o bullying – qualquer situação na qual um aluno, ou um grupo de alunos, provoca de forma intencional e repetidamente, danos físicos (lesões) ou psicológicos (dor, mágoa, angústia, tristeza) a outro aluno.
Alunos que são alvos de bullying tendem a ter problemas de autoestima e sentem-se inseguros para interagir com os colegas ou participar mais ativamente das aulas, gerando queda
no rendimento escolar. Muitos desenvolvem depressão, procuram desculpas para não ir à escola como forma de evitar o sofrimento, e outros chegam a desistir do ano letivo. Alguns sofrem de transtornos como automutilação e, nos piores casos, chegam ao suicídio. Os casos dessa consequência têm aumentado drasticamente a cada ano.

Em 2016, foi sancionada pela então presidente Dilma Rousseff a Lei 13.277/2016, que institui o dia 7 de abril como o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola. Esta data marca o aniversário da tragédia da Escola Municipal Tasso da Silveira em Realengo (bairro do Rio de Janeiro) em 2011. Um ex-aluno, de 24 anos, invadiu uma sala de aula e atirou contra os estudantes. O atirador matou 11alunos e se suicidou em seguida. Os relatos apresentados por parentes e algumas mensagens deixadas pelo jovem dizem que ele sofreu bullying enquanto foi aluno da instituição, o que teria motivado o crime associado a algum tipo de distúrbio mental que ele possivelmente teria. Outra data que alerta para o problema com o qual muitas crianças e adolescentes vivem como parte da rotina nas escolas é o Dia Mundial de Combate ao Bullying assinalado à 20 de outubro.

Essas datas pretendem consciencializar a população para essa forma de violência, assim como apoiar e incentivar as vítimas a denunciarem situações vividas. Por isso, é dever da escola encontrar formas de prevenir esse problema, assim como promover ações que possam desenvolver a cultura da paz, da tolerância, do respeito e da solidariedade.

Em 2017 tive a oportunidade de conhecer um pouco sobre o sistema educacional finlandês por meio do Gira Mundo Finlândia, um importante programa de capacitação de professores da rede estadual da Paraíba, que leva professores a uma imersão na educação finlandesa durante dois meses, acompanhados pela HAMK University. Na ocasião, pude conhecer as experiências da Finlândia no combate ao bullying e chamou-me a atenção um programa governamental denominado Verso (que significa “broto” em finlandês), já em execução há mais de uma década naquele país. Na Finlândia, o Verso apoia-se em procedimentos de treinamento dos próprios estudantes para atuarem como intermediadores de conflitos na escola como prática de cidadania e civilidade.

Na adaptação para uso em nossa realidade, o programa VERSO tornou-se um projeto pedagógico e recebeu o nome de REVERSO, mantendo uma clara referência ao programa finlandês, mas ampliando sua significação em face de todas as conotações que esta palavra ganha em português: avesso, conversão, mudança, tudo que esperamos fazer no cotidiano escolar em relação ao bullying.
Este artigo expõe as ações de intervenção desenvolvidas por meio de uma abordagem centrada no aluno, promovendo a mediação de conflitos surgidos entre o corpo discente da
escola lócus, a partir da intermediação dos próprios alunos. Para a eficácia do processo de intermediação, os estudantes mais velhos foram treinados para seguirem alguns princípios e procedimentos de modo a pudessem atuar como “conciliadores” e intermediar a solução de conflitos entre os colegas mais jovens.

1.1 OBJETIVOS

1.1.1 Objetivo Geral

O projeto tem como objetivo geral reduzir os casos de bullying e desenvolver atitudes protagonistas que envolvam valores como respeito às diferenças e solidariedade entre todos.

1.1.2 Objetivos específicos

São objetivos específicos deste projeto:
– Trazer ao ambiente escolar as discussões sobre diversidade e direitos humanos;
– Discutir com os alunos as principais causas de bullying;
– Desenvolver ações educativas contra o bullying na unidade escolar;
– Construir coletivamente regras de convivência e contra o bullying na unidade escolar;
– Promover o protagonismo juvenil pelo incentivo às ideias e criações dos alunos para solução desse problema;
– Contribuir para o desenvolvimento da leitura, por meio de textos que estimulem a reflexão;
– Contribuir para o desenvolvimento da escrita, por meio da produção de textos como relatos e artigos de opinião;
– Contribuir para o desenvolvimento da oralidade, por meio da participação em debates e do processo de mediação;
– Contribuir para o desenvolvimento da criatividade, por meio da produção de textos teatrais, campanhas e paródias.
– Contribuir para o desenvolvimento de uma cultura de paz e respeito que se estenda para fora dos muros da escola.

2 METODOLOGIA

Em relação à metodologia, podemos afirmar primeiramente que se trata de um trabalho de pesquisa qualitativa, visto que não há preocupação com números, mas com as causas e efeitos do bullying no ambiente escolar.

Também pode-se classificar este trabalho como parte de uma pesquisa empírica e de campo, realizada dentro da Escola Cidadã Integral Monsenhor Pedro Anísio Bezerra Dantas, instituição pública localizada na zona urbana de João Pessoa, capital da Paraíba. Em 2018, a escola atendia aproximadamente 300 alunos do Ensino Fundamental e Médio. Este trabalho partiu da observação da ocorrência do bullying no ambiente escolar e as ações planejadas tiveram a finalidade de testar a hipótese de que haveria diminuição dos casos de bullying após a implantação de um programa de combate ao problema.
A primeira etapa do projeto dirigiu-se à equipe escolar (professores e gestores) com o intuito de informar, sensibilizar e, assim, convencer os parceiros a apoiar o projeto, contribuindo em diferentes etapas do processo. Nesta reunião com os docentes e gestores apresentamos alguns slides apresentação do Projeto Reverso com os principais conceitos que ele aborda: o que é conflito, liderança, confiança, intermediação. Também apresentaremos os materiais que seriam utilizados pelos estudantes moderadores: carteirinha e contrato de acompanhamento dos casos.

Nesta ocasião, a equipe pedagógica também pôde sugerir situações relacionadas ao bullying para compor o formulário de pesquisa sobre tipos de bullying mais recorrentes na escola. Também solicitamos aos professores que observassem o comportamento de docentes os quais eles percebem com o perfil de líder pacificador e que pudessem participar do treinamento para ser um conciliador.

A segunda etapa consistiu no trabalho voltado para o corpo discente. Iniciamos com a apresentação do filme “Bang-bang: você morreu!” (Guy Ferland, 2002) para as turmas do Ensino Médio. O filme retrata a história de Trevor, um adolescente vítima de bullying, que preocupa os professores e familiares apenas quando ameaça explodir o time de futebol da escola. Para os estudantes do Ensino Fundamental, exibimos outro filme: “Extraordinário” (Stephen Chbosky, 2017), que retrata a vida de um menino que nasceu com uma deformação e tem que lidar com a perseguição dos colegas. Após assistir aos filmes, cada turma realizou, sob orientação de um professor, rodas de conversa e textos escritos com opiniões sobre como cada personagem e sobre como cada escola lidara com a situação.
Após esse debate, os estudantes foram convidados a responder um pequeno questionário para coleta de dados sobre os tipos de bullying que ocorriam com mais frequência na escola. Trata-se, portanto, de um levantamento diagnóstico, o que é fundamental para o claro reconhecimento do fenômeno no contexto escolar. Os dados foram tabulados e os resultados apresentados sob a forma de gráficos para toada a comunidade escolar.

Em seguida, iniciou-se uma campanha de combate ao bullying com uma data de culminância para apresentação de poemas, cordéis, cartazes com frases, desenhos, informações, infográficos, gráficos com os resultados da pesquisa, esquetes, paródias, etc. Cada turma teve um professor responsável para ajudar na apresentação.

Concomitantemente, um grupo de alunos voluntários iniciou o treinamento para exercício da função de conciliadores. Os estudantes selecionados passaram por um treinamento transdisciplinar por meio de oficinas com dinâmicas para construírem juntos os conceitos de confiança, intermediação, conflito, liderança e julgamento. Nesta etapa deixou-se claro para os alunos até onde vai a tarefa do mediador e qual deve ser a postura adotada por ele diante dos conflitos.

De forma resumida, pode-se afirmar que o projeto foi organizado seguindo um programa de seis etapas, conforme exposto a seguir:

I) Engajamento da comunidade escolar:
– Reuniões e conversas com professores e gestores.
– Reunião com pais e responsáveis pelos alunos.

II) Engajamento dos estudantes:
– Preparação: Apresentação e debate sobre os filmes: Bang-Bang: você morreu e Extraordinário
– Pesquisa: tipos de Bullying testemunhados ou sofridos na escola: conversas com estudantes, caixa para relatos anônimos;
– Realização de dinâmicas sobre as consequências do bullying;
– Campanha antibullying: pôsteres, poemas, desenhos, infográficos, performances, paródias, etc.

III) Seleção dos alunos voluntários para o papel dos conciliadores:
Os estudantes foram convidados a participar das ações em horário oposto às aulas regulares.

IV) Formação de Conciliadores
Por meio de encontros e oficinas em etapas:

– Preparação: Consequências do bullying na identidade de quem o sofre;
– Conteúdo: construção de conceitos relacionados à conciliação (confiança, liderança, conflito, não julgamento, intermediação etc.);
– Papel do conciliador: esclarecimentos para os estudantes em treinamento sobre o papel e a postura de um mediador de conflito;
– Procedimentos da conciliação: Formação das etapas e procedimentos da conciliação de conflitos.
Os mediadores foram treinados para seguir as seguintes regras e princípios de conciliação:
– Obrigação de confidencialidade: o que se discute e decide entre os conflitantes não será difundido nem com outros adultos (pais) nem com outros colegas;
– Imparcialidade: o intermediador não expressará opiniões, nem tomará partido por nenhuma parte;
– Estabelecimento de soluções por conflitantes: a solução para o conflito deve ser encontrada e discutida pelos próprios conflitantes;
– Não penalidades: não será aplicada nenhuma penalidade a qualquer estudante envolvido no conflito, prevalece o acordado entre as partes;
– Voluntariedade: a participação no programa tem que ser inteiramente voluntária, tanto de parte dos conciliadores quanto de parte de alunos em conflito;
– Trabalho colaborativo: a intermediação de conflitos não deve ser feita nunca individualmente, sempre colaborativamente entre pelo menos dois alunos.

Os mediadores, no processo de mediação, deviam seguir os seguintes passos no momento da intermediação de conflitos.

1. Saudação: Cumprimentar, perguntar aos conflitantes se desejam estar ali e procurar, juntos, uma solução para o problema. Explicar o funcionamento do processo de conciliação.

2. Relato: Perguntar: “O que aconteceu?”. Instruir os conflitantes a falar alternadamente.

3. Procura de Soluções: Perguntar às partes por suas próprias soluções. Perguntar: “Como você acha que essa situação pode se solucionar?” e “Você pode prometer que a questão não acontecerá de novo?”

4. Acordo e Assinatura: Escrever as soluções acordadas entre as partes. Perguntar a cada parte: “O que está escrito neste contrato?”. Pedir que cada parte assine o contrato.

5. Após a conciliação: Felicitar as partes. Arquivar a ocorrência. Retomar a negociação uma semana depois para ver se já se solucionou o problema. Em caso de o conflito continuar, buscar o estabelecimento de um novo acordo assinado entre as partes.

V) Análise do desempenho dos conciliadores:

Estudantes que estavam atuando como conciliadores estavam sob a supervisão e acompanhamento dos professores e gestores da escola.

VI) Análise dos dados recolhidos durante os procedimentos de intermediação:
As fichas de acompanhamento preenchidas durante os encontros de conciliação ficaram disponíveis para a direção e coordenação pedagógica para que fosse feito um acompanhamento dos envolvidos.

3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

O bullying escolar é um tipo de violência presente nas escolas da maioria dos países e, em cada um deles, estratégias de combate ao problema são organizadas conforme a realidade cultural e social de cada região. No Brasil, segundo Ristum (2010), as formas de bullying são semelhantes às encontradas em outros países.

As atitudes agressivas se apresentam de diversas formas: colocar apelidos, humilhar, discriminar, bater, roubar, aterrorizar, excluir socialmente, divulgar comentários maldosos, entre outras tantas formas, incluindo casos de ciberbullying (BEAUDOIN; TAYLOR, 2006).

Independentemente do tipo de bullying, há sempre que se observar a existência de determinados papéis desempenhados pelos envolvidos: o autor, o alvo e as testemunhas, responsáveis, muitas vezes, por aplaudir ou servir apenas de expectadores passivos. O pesquisador Ristum (2010), em estudo realizado em escolas da Bahia, ressalta que há uma mobilidade entre esses papéis: um estudante pode ser alvo em determinada situação e autor em outra; as testemunhas podem ser futuros alvos ou também autores de bullying.

Algumas formas de bullying são tão frequentes que acabam se banalizando, sendo consideradas expressões normais de relacionamento entre os estudantes. Ristum (2010, p. 110) adverte para o fato de que “[…] é comum encontrarmos professores e pais que consideram muitos dos comportamentos de bullying como parte da fase de desenvolvimento da criança ou do adolescente”. Infelizmente, às vezes, as agressões são também cometidas por funcionários e até por professores, que não compreendem a gravidade das feridas que se abrem no coração daqueles que são vítimas. Certamente, é esta uma das dificuldades para o enfrentamento dessa violência disfarçada de brincadeira.

De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 2017) os temas transversais devem ser inseridos pelas diferentes disciplinas já existentes para a compreensão e construção da realidade social e dos direitos e responsabilidades relacionados com a vida pessoal e coletiva. O bullying está, portanto, entre as questões importantes, urgentes e presentes no cotidiano que devem ser discutidas na escola por qualquer professor, em qualquer disciplina no eixo da Ética. Trata-se também de uma estratégia que pretende reforçar a autonomia e protagonismo dos estudantes, habilidades desejadas para o Século XXI, as quais toda instituição de ensino deve procurar desenvolver nos educandos (DEMO, 2012).

O bullying sofrido dentro da escola também aparece entre os motivos da evasão escolar e do baixo rendimento acadêmico, que afeta não apenas as vítimas, mas também os agressores, que apresentam “distanciamento dos objetivos da escola, e a supervalorização da violência como forma de obter poder” (RISTUM, 2010, p. 111).

Alunos que são alvos de bullying tendem a ter problemas de autoestima e sentem-se inseguros para interagir com os colegas ou participar mais ativamente da aula, gerando queda no rendimento escolar. Muitos desenvolvem depressão, procuram desculpas para não ir à escola como forma de evitar o sofrimento, e outros chegam a desistir do ano letivo. Alguns sofrem de transtornos como automutilação e, nos piores casos, chegam ao suicídio.

De acordo com Moratelli (2013) um dos princípios básicos da “justiça restaurativa” é foco na reconstrução dos laços emocionais entre o ofendido e o ofensor. Por isso, as ações não têm foco na criação de punições, mas na restauração do sentimento de segurança e dignidade. O encontro de reflexão e diálogo entre o ofensor e o ofendido pretende reparar os males emocionais causados pela violência. Por isso, as ações do projeto partiram da identificação das situações ocorridas no ambiente escolar caracterizadas como bullying para a discussão sobre formas de melhorar a convivência entre os mais diversos grupos na escola, com vistas à valorização da amizade e de valores humanos como respeito e solidariedade.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Muitos foram os desafios enfrentados para alcançar os objetivos deste trabalho, desde a delimitação de ações que possam ser consideradas como bullying até o alcance do engajamento de estudantes e professores. Entretanto, fazer o levantamento dessas dificuldades é também demonstrar o esforço realizado para superar cada uma delas.

4.1 Delimitação do escopo do projeto:

Sendo a sociedade brasileira tão complexa em sua constituição, o primeiro desafio que nos surgiu na implementação do projeto foi a necessidade de definir o escopo de sua atuação, considerando questões de cunho cultural e até mesmo legal implícitas no processo.
Por exemplo, na pesquisa realizada entre os estudantes sobre os tipos de bullying vividos na escola, um dos mais comuns foi o “furto”. No intuito de deixar claro o escopo da atuação dos mediadores, e pensando na segurança e integridade de todos os envolvidos, o treinamento
incluiu o debate e esclarecimentos sobre a diferença entre “conflito” e “delito”, para que não restasse dúvida sobre quais tipos de questões poderiam ser mediados pelos estudantes ou o que caberia às instâncias superiores da estrutura escolar. O Reverso pretende ser um espaço de mobilização e protagonismo juvenil, por isso, qualquer evento conflituoso que extrapole a possibilidade de atuação dos jovens requer a intervenção dos adultos.

Num levantamento sobre as disparidades a serem levadas em consideração, os tópicos que mais chamaram a atenção estavam relacionados ao respeito à hierarquia, à possibilidade da prática de pequenos delitos ou mesmo de agressões físicas, eventos que extrapolam o escopo do programa.

4.2 Desafios relativos à infraestrutura da escola:

A ECIT Pedro Anísio passou por grandes reformas durante o processo de aplicação deste projeto e, por vezes, não era possível reunir os estudantes em ambientes adequados ou ter acesso à internet. Ao aplicarmos o princípio de que menos é mais, mantivemos em mente que pequenas ações causam mudanças ao longo do tempo, e assim conseguimos nos concentrar em soluções e superar as dificuldades, buscando solucionar limitações, adaptando-nos da melhor forma possível às circunstâncias, sempre tendo em mente a ideia de simplificar, mas com objetividade e qualidade metodológica.

Dentre soluções encontradas, citamos abaixo algumas e suas contribuições:
– Padlet: Recurso virtual para denúncia, ao qual o(a) aluno(a) pode ter acesso de qualquer lugar e a qualquer hora, por ser um instrumento de denúncia online;
– Caixinha de denúncia: Sem acesso à internet, o estudante pode escrever seu desabafo, denúncia ou sugestão em qualquer papel, identificando-se ou anonimamente;
– Redes sociais: Foram utilizadas para expor trabalhos e discussões feitos na comunidade escolar, tanto para fazer com que o tema ultrapasse os muros da escola como também para servir de expositor virtual de trabalhos e materiais visuais que, em contexto de reforma, não podiam ser expostos no espaço físico;
– Parcerias: A parceria com outros professores foi importante para o desenvolvimento de atividades como: apresentação dos filmes, dinâmica da maçã, discussões e acolhimento.
– Espaço para conciliação: A conciliação pôde ser realizada na hora do intervalo ou em algum período de aula, tendo o professor autorizado a saída do estudante.

4.3 Desafios relativos à falta de apoio de outros professores:

Um dos principais obstáculos tem a ver com reduzida adesão de outros professores em relação ao projeto aplicado, seja pela grande quantidade de outras atividades a serem realizadas concomitantemente, e que já estavam previstas previamente no calendário escolar ou eram projetos de outros professores, seja pela dificuldade em compreender como aplicável a proposta no contexto de escolas da rede pública.

Em que pese a anuência da gestão para a realização das suas atividades houve evidente lacuna quanto a um posicionamento mais ativo e efetivo para mobilização dos demais professores além da disponibilidade de espaço para discussão do projeto e tempo maior nas reuniões de planejamento para apresentação das propostas e das ações ao longo do ano.

4.4 Desafios relativos à falta de participação de pais e estudantes:

Era necessário buscar engajar os pais e os próprios estudantes no Projeto. Por isso, no apresentamos alguns slides sobre o Projeto REVERSO com os principais conceitos que ele aborda: o que é conflito, liderança, confiança, intermediação. Nessa ocasião, pedimos sugestões da equipe pedagógica sobre situações que se encaixassem no formulário de pesquisa sobre tipos de bullying. Também solicitamos aos professores que procurassem identificar os alunos que percebessem que teriam o perfil de conciliador que pudessem participar do treinamento para exercer essa tarefa.

Na reunião com pais e responsáveis o objetivo também foi de sensibilizar e atrair parceiros e/ou colaboradores para o projeto. Antes de expormos a nossa proposta, apresentamos a temática do bullying por meio de uma pequena dinâmica que utiliza uma maçã, além de slides sobre a formação de cristais de água em ambientes com agressões verbais. Tais atividades tinham como objetivo a sensibilização para as consequências do bullying na identidade daquele que o sofre.

Após os trabalhos envolvendo discussões, produção de cartazes e atividades com canais de denúncias e desabafos (padlet e caixa), a atividade da maçã foi realizada com os alunos do Ensino Médio.

Em seguida, iniciamos o treinamento dos alunos voluntários em formato de oficina com as seguintes etapas:

1ª) Dinâmicas para construir junto aos alunos os conceitos de confiança, liderança, conflito, não julgamento, intermediação, esclarecimentos para os alunos até onde vai a tarefa do mediador e qual deve ser sua postura;

2ª) Dramatização de situações de bullying, do papel do conciliador e da metodologia específica do

REVERSO para a mediação de alunos em conflito. Também apresentamos os materiais que
seriam utilizados pelos estudantes moderadores: carteirinha e contrato de acompanhamento dos casos;

3ª) Simulação de situações de conciliação entre os voluntários.

De forma mais ampla, foi possível perceber as mudanças ocorridas no cotidiano escolar, a partir de todo o trabalho realizado de conscientização e de uso de estratégias de prevenção e de conciliação para mediação de conflitos entre os alunos que promovem e/ou sofrem o bullying.

O resultado mais visível está relacionado às competências relacionais e emocionais: os estudantes estiveram mais disponíveis à interação e comunicação tanto com seus pares quanto com os professores. Também foi possível perceber algumas mudanças em muitos alunos em relação à capacidade de lidar positivamente com desafios, com dificuldades, com os próprios sentimentos e com os sentimentos dos outros, quando eles tentam colocar-se no lugar da outra pessoa.

Tais mudanças não são de fácil percepção, uma vez que estamos trabalhando com mudanças de postura, de hábitos e formas de pensar sobre si mesmo e o outro. Mudanças na forma de pensar são muito difíceis de se alcançar, pois dependem de um trabalho persistente, prolongado e contínuo.
No que se refere à avalição mais restrita, pode-se perceber entre os alunos maior participação: nas discussões e reflexões; nos momentos de leitura compartilhada de textos motivadores; em trabalhos colaborativos para criação de cartazes, dramatizações, pesquisas; produção de textos escritos como relatos pessoais, reflexões, mensagens e relatórios.

A longo prazo, esperamos, nos próximos anos, ver todo corpo docente, alunos e demais participantes do contexto escolar comprometidos no desenvolvimento de uma cultura de paz, respeito e solidariedade dentro e fora da escola.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sobretudo, o processo de desenvolvimnto deste projeto possibilitou aprendizagens de várias ordens a professores, estudantes e gestores:

(1) O bullying é um problema complexo que precisa ser encarado pela escola de maneira concreta e sistemática, para dirimir suas graves consequências na autoestima e no aproveitamento escolar de alunos e alunas;

(2) Uma vez sensibilizados, os alunos apresentam muito interesse em ver essa questão tratada na escola, porque todos têm, de uma maneira ou de outra, experiência com o bullying;

(3) Os casos de violência ocorridos no ambiente escolar transcendem ao que se pode compreender como bullying. Em nossa pesquisa sobre tipos de bullying observados ou sofridos na escola, os estudantes fizeram referência, por exemplo, a casos de furto ou de agressões físicas. Isso nos dá um diagnóstico do desejo de encontrar soluções para situações em que se sentem inseguros. No entanto, nos vimos na necessidade de esclarecer a diferença entre bullying X delito, delimitando o escopo de atuação do Reverso, e definindo aquilo que compete a instâncias superiores na organização escolar. Não se pode perder de vista que o Reverso tem como objetivo último oferecer ao alunado uma instância para aprendizagem de habilidades de socialização que, possivelmente, não lhes são oferecidas pelas disciplinas do currículo comum. Não é parte do programa, portanto, colocar os voluntários conciliadores em situações de estresse psicológico ou de risco de sofrerem represálias de parte de pessoas envolvidas em atos delituosos.

(4) Os desafios para a implementação deste programa devem ser enfrentados com resiliência e paciência, baseados nos princípios de que “menos é mais”, na perspectivia de ações graduais, porém persistentes – “little by little” – e na confiança no processo.

(5) A implementação desse programa lida com questões muito sutis da vida escolar e deve levar em consideração os tempos necessários para a assimilação da ideia por cada um dos grupos da comunidade escolar.

(6) Devido à sua importância, acreditamos que a melhor maneira para garantir a continuidade do programa é que ele seja transformado em política pública, incluída no plano de governo para a área da educação, fazendo assim parte do calendário permanente de ações pedagógicas transdisciplinares nesta e em outras unidades de ensino, a fim de garantir a participação de gestores e professores e permitir sua continuidade. A luta contra essa violência não pode ser vista como um “projeto particular’ de um professor, como um assunto para ser abordado em determinado dia do ano. Esse tema deve ser tratado com a seriedade que merece todos os dias do ano e por todas as pessoas que compõem a comunidade escolar.

Por tudo isso, vê-se a necessidade de que projetos como esse, que estão ligados aos ideais da cultura da paz, sejam visto com tamanha importância que todos os professores sejam sabedores do seu formato e atuação a fim de que sejam capazes de reconhecer situações que possam ser alvo dos mediadores formados pelo projeto, o qual poderá permanecer ativo nos anos vindouros, já que os estudantes já instruídos poderão formar novos mediadores. Um trabalho integrado com os demais professores, mediado pela gestão escolar trará resultados plenos para os objetivos propostos.

Regina Claudia Custodio de Lima
Master in Portuguese Language (UEPB – State University of Paraíba)
Participated in the Gira Mundo Finland Program sponsored by the State of Paraíba – Brazil (2017 – 2018).
Teaches Portuguese language in public elementary schools in Paraíba (Brazil).

REFERÊNCIAS

BANG-BANG, você morreu. Título original: Bang Bang You’re dead. Direção: Guy Ferland. Produção: Deboragh Gabler e Paul Hellerman. Roteiro: William Mastrosimone. Elenco: Ben Foster, Tom Cavanagh e outros. Gênero: Drama. Estados Unidos: Paramount, 2002. 87 min., son., color. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=KrSpOSrs97w>.
BEAUDOIN, M. N.; TAYLOR, M. Bullying e desrespeito: como acabar com essa cultura na escola. Tradução: Sandra Regina Netz. Porto Alegre: Artmed, 2006.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: apresentação dos temas transversais, ética. Brasília: MEC/SEF, 1997.
DEMO, Pedro. Habilidades e Competências no Século XXI. 3. ed. Porto Alegre: Mediação, 2012.
EXTRAORDINÁRIO. Título original: Wonder. Direção: Stephen Chbosky. Produção: Michael Beugg, Dan Clarke, Jeffrey Harlacker et alii. Roteiro: Stephen Chbosky, Steve
Conrad, Jack Thorne. Gênero: Drama. Estados Unidos: Lionsgate, Mandeville Films, Participant Media, Walden Media. Distribuição: Paris Filmes, 2017. 01 DVD. 113 min., son., color.
FINNISH FORUM FOR MEDIATION (SSF). VERSO-programme. Helsinki: Suomen sovittelufoorumi, 2017. Disponível em: <http://www.ssfffm.com/vertaissovittelu/index.php?id
=IN%20ENGLIS>. Acesso em: 03 dez. 2017.
KIVA INTERNATIONAL. KiVa Anti-Bullying Program. Homepage. Turku: Ministry of Education and Culture of Finland; University of Turku, 2017. Disponível em: <http://www.kivaprogram.net>. Acesso em: 03 dez. 2017.
MORATELLI, Paulo. Prevenindo a violência e promovendo a justiça juvenil restaurativa: justiça juvenil restaurativa e práticas de resolução positiva de conflitos. – Fortaleza: Terre des
hommes, 2013.
RISTUM, Marilena. Bullying escolar. In: ASSIS, Simone Gonçalves de (Org.). Impactos da violência na escola: um diálogo com professores. Rio de Janeiro: Ministério da Educação; FIOCRUZ, 2010.

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